5# INTERNACIONAL 22.1.14

     5#1 CHEIO DE AMOR PARA DAR
     5#2 O QUE FICOU DA PRIMAVERA
     5#3 SEMPRE PODE PIORAR

5#1 CHEIO DE AMOR PARA DAR
Hollande  mesmo incontrolvel em suas paixes. J fazia tempo que ele traa a primeira-dama com a atriz Julie Gayet.
MRIO SABINO, DE PARIS

     Para se diferenciar do seu antecessor, Nicolas Sarkozy, exibicionista do ponto de vista material e amoroso (abandonado pela mulher no incio do mandato, arrumou Carla Bruni para ocupar o lugar de primeira-dama, aquela que teve mais namorados do que Madame de Pompadour e s os ingnuos acreditam nunca ter feito uma plstica), Franois Hollande, do Partido Socialista, declarou que seria um "presidente normal". Ou seja, um cidado como outro qualquer, que apenas ocupava o mais alto cargo da Repblica Francesa pelo voto de outros milhes de pessoas "normais". No entanto, antes mesmo de adentrar o Palcio do Eliseu, ele j se mostrava bem pouco comum na sua vida sentimental. Para comear, recusou-se a casar com a me dos seus quatro filhos, Sgolne Royal, companheira desde os tempos nas fileiras da juventude esquerdista. Em 2007, candidata  Presidncia, Sgolne pediu a mo de Hollande em pblico. Obteve o silncio como resposta e se viu obrigada a dizer, num programa de televiso, que "ns no precisamos disso para nos amarmos". Pouco mais tarde, postulante ao Eliseu, Hollande assumiu a sua relao com Valrie Trierweiler, jornalista da revista Paris Match, um fato em si pouco original, dado o nmero de polticos franceses que se casam com reprteres, colunistas e apresentadoras de televiso. E eis que agora, passados menos de dois anos, Valrie foi humilhada ao ser informada com todas as letras e fotos, na semana retrasada, pela revista Closer, de que o "presidente normal" mantm um caso chamuscante com a atriz Julie Gayet, de 41 anos  para culminar, bem mais jovem do que ela. Imagens de Hollande na garupa da lambreta de um segurana, a caminho de uma garonnire perto do palcio presidencial, para desfrutar noites de amor com Julie e cafs da manh com croissants quentinhos, providenciados igualmente por seguranas, deixaram Valrie em estado de choque. 
     Ao ler a reportagem, Valrie irrompeu no gabinete de Hollande, exigindo explicaes. "Sim,  verdade", respondeu o presidente, em tom normal. Entre furiosa e deprimida, ela foi internada no Piti-Salptrire  o hospital, alis, onde Jean-Martin Charcot, professor de Sigmund Freud, conduziu os seus estudos sobre histeria. Chegou a circular em Paris a notcia de que Valrie teria tentado o suicdio, tomando uma dose de tranquilizantes, mas ao que parece no quis se matar, s exagerou um pouco. Ela continua internada, sem data para sair, e foi divulgado que estaria disposta a perdoar Hollande.  difcil mesmo perder essa boquinha de primeira-dama. Em especial s vsperas de uma visita oficial do presidente francs aos Estados Unidos, em 11 de fevereiro, quando a vaidosssima Valrie ganharia os holofotes internacionais ao manter encontros paralelos com Michelle Obama. No se pode dizer que a "Rottweller" foi pega de surpresa. Ela e Hollande j no dormiam juntos fazia meses e os amigos de Julie no perdiam a oportunidade de fazer aluses nem to veladas assim, via televiso,  extrema ateno que o presidente dedicava  carreira da atriz. 
     Na tera-feira passada, Hollande deu uma entrevista coletiva, marcada previamente  ecloso do escndalo, a 500 jornalistas credenciados no Palcio do Eliseu.  pergunta se Valrie continuava a ser primeira-dama, ele respondeu que "todos, na vida pessoal, podem passar por provas.  o nosso caso. Esses so momentos dolorosos". Hollande, que no negou o relacionamento, afirmou que no falaria mais sobre questes pessoais e disse que faria esclarecimentos em breve. Os franceses, ao contrrio dos americanos, no acham importante se os polticos levam uma vida pessoal de acordo ou no com os padres morais tradicionais. Fruto, talvez, da tradio libertina do sculo XVIII. Quando veio  tona que o presidente Franois Mitterrand era bgamo, com todo o respeito e discrio, isso teve mais repercusso no exterior do que dentro do pas. Desta vez, contudo, as reaes tm sido mais eloquentes. A administrao Hollande  um desastre, ele  o governante mais impopular desde Lus XVI (" a economia, seu stiro!"), o imbrglio foi parar numa revista popular para l de estridente e caiu a ficha de que Valrie, afinal de contas, nunca foi primeira-dama de fato. Era (ou ainda , dependendo de como terminar essa histria) apenas uma amante cara demais para os cofres pblicos, com um squito de vinte funcionrios. Cara e antiptica. 
     Extremamente ciumenta, ela fez a picuinha de apoiar pelo Twitter um adversrio do candidato de Sgolne nas eleies legislativas de 2012. "Ela faria melhor se se preocupasse com a prxima, e no comigo", confidenciou Sgolne na ocasio, sabedora das paixes incontrolveis do sujeitinho de quem foi companheira. Valrie fez questo, ainda, de que Hollande declarasse em pblico que ela era a mulher da sua vida. Ordem obedecida, o presidente afirmou depois que teria sido mais prudente dizer que Valrie era "a mulher da sua vida nos dias de hoje". Quer dizer, ontem. Os franceses odeiam a recm-trada a ponto de terem criado uma corrente de dio na internet depois da reportagem, algo pouco usual por aqui. H alguns meses, Hollande teve de passar pelo vexame de ver uma eleitora sua pedindo-lhe, na televiso, que no se casasse com Valrie, porque ningum gostava dela. 
     Julie Gayet, dois filhos, divorciada do escritor e roteirista argentino Santiago Amigorena, no  exatamente uma santa. Amigorena lanou h pouco um romance  clef, intitulado Os Dias que No Esquecerei, em que narra seus problemas conjugais com Julie e do qual Hollande  personagem oculto. Como  chato processar ex-marido, ela resolveu acionar a revista Closer, que retirou a reportagem original do seu site, por causa de uma liminar concedida ao advogado da atriz. Acusa a publicao de "invaso de privacidade" e exige 50.000 euros de indenizao, mais as custas do processo. Uma das ltimas revelaes  que Julie foi apresentada a Hollande por Thomas, de 29 anos, o filho mais velho do presidente com Sgolne. No poderia haver vingana maior para os rebentos da primeira unio, que no suportam Valrie e ficaram meses sem falar com o pai depois que ele deixou a me. 
     A outra notcia indita, publicada na Closer que saiu na ltima sexta,  que Hollande e Julie so amantes j faz quase dois anos, passaram um fim de semana romntico no sul da Frana e que usaram mais de uma garonnire para os seus encontros furtivos perto do Palcio do Eliseu. Julie tambm havia sido designada pelo presidente para ser jurada do concurso que escolhe artistas para estgios na Villa Medici, em Roma, uma posio cultural de muito prestgio que ela perdeu dois dias atrs. Ah, sim, comeou a circular em Paris que Julie estaria grvida de quatro meses. Falso, verdadeiro? "Com um presidente desses, a Frana fez com que esquecessem Berlusconi!", comentou, aliviada, uma correspondente italiana na capital francesa.  o "bung-bung" de Franois. 


5#2 O QUE FICOU DA PRIMAVERA
A nova Constituio do Egito, aprovada em referendo, preserva os poderes dos militares que apearam os islamistas do governo. Na Tunsia, ao contrrio, abriu-se uma fresta de democracia.
DUDA TEIXEIRA

     As manifestaes populares que ficaram conhecidas como Primavera rabe comearam h trs anos na Tunsia e, em seguida, foram imitadas no Egito. Nesses pases, os ditadores Zine Ben Ali e Hosni Mubarak foram depostos e os partidos islmicos levaram a melhor nas primeiras eleies livres. Apesar desses pontos em comum, a realidade nas duas naes atualmente  bastante distinta. Na Tunsia, os islamistas do partido Ennahda conseguiram com o tempo se entender com os seculares e os grupos de esquerda e, juntos, escreveram uma nova Constituio, com o apoio de todas as faces. Isso foi possvel porque o Ennahda, que inicialmente tentou enfiar artigos contrrios aos direitos das mulheres ou inspirados em leis religiosas na Constituio, voltou atrs depois de observar o que aconteceu com a Irmandade Muulmana no Egito. Os islamistas egpcios, aps assumir o poder, excluram a oposio secular das discusses da nova Constituio. Em julho do ano passado, depois de um golpe militar, ocorreu o inverso. Os generais estabeleceram uma comisso que elaborou uma nova Carta sem a presena da Irmandade e preservou seus antigos feudos. Com isso, os militares voltaram a usufruir um poder poltico e econmico similar ao que desfrutaram em dcadas anteriores. 
     Na semana passada, a Constituio foi submetida a consulta popular. O principal indcio de que o sistema poltico egpcio anda em crculos foi o resultado do referendo: segundo os dados oficiais, 98% dos eleitores aprovaram o texto.  praticamente impossvel alcanar tal maioria em um pleito limpo e justo. At o ex-ditador Mubarak, na ltima eleio de cartas marcadas que realizou, em 2005, recebeu menos votos, mais precisamente 88% do total. A foto onipresente nos cartazes de rua, na semana passada, era a do chefe das Foras Armadas, Abdel Fattah al-Sisi, o lder do golpe contra o presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muulmana. Nos centros de votao, tocava-se continuamente uma msica ufanista em agradecimento aos militares, cantada por artistas famosos. Quem fez campanha contra a Constituio foi preso. A Irmandade, classificada no ms passado como organizao terrorista pelo governo interino, pediu o boicote  votao. O comparecimento foi baixo, mas no muito diferente do registrado nas eleies passadas, em que a Irmandade se saiu vitoriosa. Seis em cada dez eleitores que compareceram s urnas no leram o texto constitucional a ser referendado. Tudo leva a crer, portanto, que a nova Constituio teria sido aprovada de qualquer forma e que as medidas autoritrias dos militares para conseguir uma vitria acachapante eram desnecessrias. 
     Al-Sisi afirmou que vai concorrer s eleies presidenciais deste ano se o povo assim o pedir. Fingir-se desinteressado e transferir a iniciativa da prpria candidatura para o povo  uma artimanha conhecida dos populistas. A chance de algum conseguir derrot-lo  nfima. O Egito foi governado por militares desde a queda do rei Farouk, em 1952, at 2012, quando assumiu a Irmandade. Os egpcios, preocupados com a crise econmica e com o caos instalado no pas durante os doze meses dos islamistas no poder, esto novamente encantados com os homens de uniforme. "Quando h incertezas e medo, o povo tende a regredir a valores tradicionais e patriarcais", diz o socilogo iraniano Mansoor Moaddel, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. "Os egpcios querem um homem forte para cuidar deles, e os militares se beneficiaram desse estado de esprito." Em 2001, 57% dos cidados tinham simpatia pelos militares. A aprovao est hoje em 71%. Na Tunsia, em comparao, a taxa  bem menor: 35%. Entre dois governos autoritrios, os egpcios optaram por aquele que lhes pareceu mais apto a impor a ordem. Ao menos por enquanto. 


5#3 SEMPRE PODE PIORAR
A presidente argentina Cristina Kirchner no aparece em pblico h um ms, mas  os escndalos continuam na vitrine.
TATIANA GIANINI

     Em um pas historicamente enfeitiado pela figura presidencial, um ms sem aparies pblicas de Cristina Kirchner deixou um vazio na cena poltica argentina. O sumio se explica em parte porque Cristina tem acompanhado a me, Oflia Wilhem, de 84 anos, que se recupera de uma histerectomia, cirurgia de retirada do tero. Tambm faz parte da estratgia kirchnerista de poupar a imagem da presidente aps um dezembro tumultuado, marcado por uma greve das polcias provinciais, por saques em massa e por apages de energia eltrica. A crise no fim do ano fez com que a aprovao da presidente casse de 42,5%, em novembro, para 28%, em dezembro. Enquanto Cristina se esconde nos bastidores para ocultar a fragilidade de sua gesto, o plano era que sua equipe de governo anunciasse medidas positivas para recuperar a confiana da populao. O incio de janeiro, no entanto, acabou marcado por mais um escndalo envolvendo um funcionrio de confiana da presidente. O canal da TV paga Todo Noticias, do Grupo Clarn, revelou fotos e vdeos mostrando que Ricardo Echegaray, o chefe da Afip, o equivalente argentino da Receita Federal, passou o rveillon no Rio de Janeiro com sua famlia e com a de dois empresrios. Um deles, Srgio Lambiris,  acusado de ser um dos maiores contrabandistas de roupas e brinquedos do pas e foi preso em 2000 por participar de uma quadrilha de ladres de cargas de caminho. O papel de Lambiris na organizao criminosa consistia em inserir a mercadoria roubada no mercado legal. Em uma foto divulgada na semana passada, Lambiris e Echegaray, que, como chefe da Afip, tambm  o responsvel pelo controle de alfndega, apareciam comendo milho em Copacabana. 
     Todas as despesas da famlia Echegaray no rveillon carioca foram pagas por Lambiris. A conta ficou em mais de 80.000 dlares. O grupo deixou Buenos Aires em 27 de dezembro em um voo da empresa rabe Emirates. A princpio, foi feita uma reserva para voar ao Brasil pela empresa nacional, a estatal Aerolneas Argentinas, mas surgiu um problema: a aeronave no tinha assentos suficientes na classe executiva para os dezesseis membros da comitiva. Nos cinco dias em que esteve no Rio de Janeiro, o grupo se hospedou no hotel Sofitel, na orla de Copacabana. De volta para casa, Echegaray tentou negar que tenha viajado com empresrios que deveriam ser vigiados pela sua prpria instituio, mas uma srie de evidncias comprovou o contrrio. O nome de todos os hspedes constava numa nica reserva. O traslado do aeroporto ao hotel foi feito em um nico veculo. Uma equipe de TV gravou imagens da trupe no aeroporto do Rio, ocasio em que os jornalistas levaram uma surra dos amigos de Echegaray. Falta descobrir se, alm da conduta antitica por ter as frias pagas por um contrabandista, Echegaray o favoreceu de alguma forma. Se isso ficar comprovado, ele poder pegar at seis anos de priso, sem falar na perda do cargo. 
     Uma das tarefas do rgo controlado por Echegaray  evitar a fuga de dlares dos cofres do pas com um rigoroso esquema de controle de cmbio, posto em prtica h mais de dois anos. O sistema tem sido um fracasso. Na sexta-feira 17, a cotao do dlar no mercado paralelo chegou a recordes de 11,9 pesos. A diferena em relao  cotao oficial  de 70%. Axel Kicillof, o ministro da Economia, com influncia crescente em outras reas do governo, tentou reduzir a relevncia da disparada do dlar paralelo. "Nosso foco est em outras coisas, como o superavit comercial, o pagamento da dvida pblica e a situao das exportaes", disse Kicillof. Nenhuma dessas coisas o ministro conseguir resolver. O pas no tem superavit, no tem dinheiro para pagar as contas, e a capacidade de exportao est no limite. No atual estgio da Argentina, no importa mais se a presidente est ou no aprontando das suas. Na ausncia dela, um dos seus homens de confiana sempre rouba a cena.


